Esculpir o tempo

“Esculpir o Tempo” marca a primeira individual de Anthony Mazza e nasce como desdobramento da residência artística realizada no LAB MR em 2024.

A exposição resulta desse período de imersão como um espaço de síntese e aprofundamento, no qual a pintura se consolida como linguagem e como campo de elaboração da memória.

Ao construir paisagens que não se fixam em um território determinado, Mazza mobiliza um imaginário coletivo atravessado por afetos e deslocamentos. Suas obras operam na densidade do tempo, sobrepondo camadas que aproximam lembrança e invenção. A imagem deixa de ser representação para tornar-se experiência, lugar onde o passado é continuamente reconfigurado.

Com curadoria de Carollina Lauriano, a mostra acompanha esse momento inaugural na trajetória do artista, evidenciando a maturação de uma pesquisa que encontra na pintura um modo de dar forma ao que permanece como memória compartilhada.

Artista

Anthony Mazza

Curadoria

Carollina Laurian

Ano

2025

Teste

Teste

A memória é uma ilha de edição.

De tempos em tempos retomo esse verso do poeta Wally Salomão, pois ele faz refletirsobre a noção de tempo e as muitas concepções da formação das nossas memórias,individuais e/ou coletivas. E mais do que só a sensação de retomada desses fatos que nosconstituem, essa frase de Wally suscita uma série de outras reflexões de como essaformação pode ser feita a partir daquilo que permitimos ou não vir à tona, e tudo isso podemudar conforme reativamos e revivemos essas experiências.

As memórias que formamos ao longo do tempo resultam de imagens, sonhos, histórias evivências construídas a partir de elementos que podemos acessar e, assim, a lembrançaque temos de um fato antigo “não é a mesma imagem que experimentamos na infância,porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, comela, nossas ideias, nossos juízos de realidade e de valor”, como descreve a psicóloga EcléaBosi em seu livro Memória e Sociedade. Vale dizer, ainda, que “lidamos com nossasmemórias do passado de maneira parcial ao atribuir-lhes emoções ou conhecimentos quesó adquirimos depois do evento”, completa o psicólogo norte-americano Daniel Schacter.

Assim, a memória se constitui como parte importante de nossa formação como sujeitossociais, nos permitindo (re)ver nossas trajetórias, nossas transformações e, ainda, recriarnossas histórias.

Esculpir o tempo, primeira individual de Anthony Mazza, lida com essas reflexões contidasno verso do poeta. As pinturas do artista evocam um certo ar de nostalgia, ao retomarcenas que fizeram parte de suas memórias de Jaú. Nesse sentido, Mazza cria uma espéciede narrativa de um tempo em suspensão, como se ele dividisse conosco esses momentosque fizeram, e fazem parte, de quem ele é, ao mesmo tempo que vários de nós,espectadores, nos reconheceremos nessas memórias: o campinho de futebol, criançasbrincando no quintal, o pôr-do-sol, o lençol no varal, o vento na copa da árvore, entre outrascenas, tornando o individual em coletivo.

Em seu livro “Paisagem e Memória”, Simon Schama diz que “a paisagem é obra da mente”,a qual “compõe-se tanto de camadas de lembranças quanto de estratos de rochas”. Eis que“natureza e percepção humana” não são campos distintos, na verdade, são “inseparáveis”,propondo um olhar para “redescobrir o que já possuímos” ao mesmo tempo que incita uma“exploração do que ainda podemos encontrar”.

Pensando sobre esses apontamentos do historiador da arte britânico, as pinturas de Mazza

- que ora assumem um caráter figurativo, ora abstrato - nos mostram que a memória é umprocesso de lembrança, esquecimento, retomada e reconstituição de fatos que nos sãofamiliares. E quando essas histórias são compartilhadas, elas passam a fazer parte damemória dos outros, também.

A memória é uma ilha de edição.

E essa é a principal beleza que eu vejo nas pinturas de Mazza. Embora elas apresentemfragmentos de cenas que fazem parte da memória do artista, a partir do contato com essasimagens, elas passam a fazer parte da nossa própria história, como se o artista abrisse suaintimidade não mais para falar sobre si, mas para falar sobre uma memória do mundo. Nãoà toa, ele não compõe uma narrativa linear, mas nos apresenta a memória como algofragmentado e uma série de ideias, sensações e sentimentos que elaboramos a partir deum lugar subjetivo.

Somos as memórias que cultivamos.Existimos a partir das memórias que partilhamos.

Carollina Lauriano

Curadora

OBRAS

Ana Hortides
Caquinhos, from the Casa 15 series, 2023
concrete and ceramic
122 x 12 x 7 cm [48 x 4 3/4 x 2 3/4 in]
(17900)

Ana Hortides
Caquinhos, from the Casa 15 series, 2023
concrete and ceramic
122 x 12 x 7 cm [48 x 4 3/4 x 2 3/4 in]
(17900)

Ana Hortides
Caquinhos, from the Casa 15 series, 2023
concrete and ceramic
122 x 12 x 7 cm [48 x 4 3/4 x 2 3/4 in]
(17900)

Ana Hortides
Caquinhos, from the Casa 15 series, 2023
concrete and ceramic
122 x 12 x 7 cm [48 x 4 3/4 x 2 3/4 in]
(17900)