Entre vestígios e futuros
A exposição coletiva Entre vestígios e futuros reúne trabalhos desenvolvidos pelas artistas residentes Ana Paula Sirino e Oksana Rudko no contexto do programa LAB MR, ao lado de obras de artistas cujas pesquisas se aproximam das questões que orientaram a residência. Em diferentes linguagens, os trabalhos retomam arquivos, saberes e narrativas herdadas, examinando tanto o que foi preservado quanto as ausências e interrupções que constituem essas transmissões. A mostra parte da compreensão de que o passado não se encontra encerrado, mas permanece inscrito nas imagens, nos corpos, nos gestos e nas matérias que atravessam o presente. Vestígios, aqui, não se restringem a fragmentos ou ruínas, mas constituem sinais persistentes, capazes de reativar memórias e tensionar narrativas. Ao mobilizar símbolos, fabulações e repertórios herdados, as práticas reunidas operam sobre diferentes camadas de tempo, fazendo do ato de lembrar não um exercício de fixação, mas um campo crítico de revisão, deslocamento e reinvenção.
Realizada entre os meses de julho e setembro, a residência articulou um conjunto de visitas e encontros com artistas, pesquisadores e curadores que trouxeram diferentes perspectivas sobre os temas da residência. O programa construiu coletivamente um campo de interrogação sobre o que significa produzir no presente a partir de tradições que, simultaneamente, perduram e são contestadas. A memória, o legado e o patrimônio não foram tratados como temas fixos ou categorias museológicas, mas como dimensões vivas da prática artística, tensionadas por cada processo e por cada decisão de ateliê. O que vinculou os encontros correspondeu menos a uma afinidade temática do que a uma postura diante do trabalho: a pesquisa compreendida como dimensão constitutiva da criação, incorporada ao cotidiano dos processos e determinante para seus desdobramentos técnicos, formais e conceituais.
Entre vestígios e futuros entende que projetar futuros não significa romper com o que veio antes, mas recolher no passado forças ainda latentes, imagens ainda abertas e experiências ainda não esgotadas. Os trabalhos assumem a produção artística como espaço de elaboração sensível e imaginativa, no qual memórias coletivas, saberes situados e narrativas historicamente subalternizadas se rearticulam para abrir outros horizontes. A mostra coletiva nomeia, assim, um espaço em que aquilo que foi vivido, silenciado ou interrompido pode voltar a emergir como matéria de invenção, permitindo que o passado deixe de ser apenas herança e se torne também potência de transformação.
Há marcas que persistem mesmo quando aquilo que lhes deu origem já não está presente. Uma pegada no chão, um risco sobre uma superfície, um gesto repetido por outro corpo ou uma imagem que atravessa o tempo. São vestígios que tornam sensível a distância entre presença e ausência.
A palavra provém do latim vestigium, designa o rastro deixado pela planta do pé no solo depois da passagem do corpo. Já na sua origem o termo guarda uma duplicidade fundamental. Nomeia ao mesmo tempo uma ausência e uma prova, o que se foi e o que insiste em ficar impresso. É dessa tensão entre o que já não está e o que permanece que a exposição Entre vestígios e futuros se constrói.
O vestígio não é matéria inerte. Sua existência depende da possibilidade de ser reconhecido, retomado e colocado novamente em circulação. Funciona como brasa sob a cinza, capaz de voltar a arder quando algo a reativa. Aby Warburg[1] fez dessa persistência um dos problemas centrais de sua investigação ao pensar na sobrevivência das formas. Para o historiador, um gesto antigo pode atravessar séculos e reaparecer, quase sem aviso, num corpo, num tecido, numa imagem contemporânea, carregando consigo uma intensidade afetiva que sobrevive às circunstâncias que originalmente a produziram. Georges Didi-Huberman[2] retomou essa questão décadas depois para pensar a imagem como forma atravessada por tempos heterogêneos. Ela vive além de seu tempo de origem e, ao sobreviver, perturba a estabilidade do presente.
É justamente porque sobrevive ao tempo que o produziu que o vestígio pode se voltar para o futuro. Chega como marca, fragmento ou forma deslocada de sua circunstância original e, por isso mesmo, permanece disponível a outras leituras e usos. O futuro não começa, então, onde o passado e o presente terminam. Produz-se também no modo como aquilo que herdamos é retomado, transformado e transmitido sob novas condições.
Essa abertura não se confunde, na exposição, com uma aposta exclusiva nas novas tecnologias. Elas aparecem na criação imagética de realidades ficcionais e nas recriações possibilitadas pelo uso da inteligência artificial, mas constituem uma das formas pelas quais os trabalhos interrogam o que ainda pode vir a ser. Muitas das produções elencadas deslocam a questão para os hibridismos entre espécies, para os processos extrativistas inscritos nos territórios e para as possibilidades de agir sobre aquilo que deles permanece. Materiais reaproveitados, saberes artesanais assentados em outras relações com uso, duração e descarte propõem formas de viver com o que já existe.
A mostra nasce da aproximação entre os processos, interlocuções e trabalhos desenvolvidos no Programa de Residência Lab-MR e a produção de um conjunto expressivo de artistas convidados. Não é uma unidade temática que os reúne, mas a recorrência de certas perguntas. Elas dizem respeito aos modos como o tempo se inscreve na matéria, no território e nas imagens, a como um saber atravessa gerações, ao que permanece depois de uma transformação e às maneiras pelas quais aquilo que nos foi legado pode ser novamente mobilizado. É nesse campo que aparecem o tempo geológico inscrito no solo urbano, os territórios remodelados pela exploração industrial e os ofícios que insistem em habitá-los, os saberes ancestrais e a cultura popular transmitidos pelo corpo e pela oralidade, a paisagem doméstica como instância de memória e afeto, os materiais reaproveitados e reconfigurados em outras estruturas. Em várias obras, a fabulação participa diretamente desse movimento por meio de arqueologias ficcionais que não pretendem recompor um passado verificável, mas inventam formas possíveis a partir de fragmentos, lacunas e sobrevivências. São modos distintos de enfrentar uma mesma pergunta sobre o que ainda pode ser produzido a partir daquilo que herdamos.
Atuar entre vestígios e futuros, nos termos que orientam esta mostra, é reconhecer no legado forças ainda não esgotadas e saberes que permanecem fecundos. Romper com o que veio antes seria abrir mão dessas reservas de sentido, ainda latentes, ainda disponíveis. O que foi vivido, silenciado ou interrompido volta a emergir como matéria de invenção, capaz de rearticular de memórias coletivas a narrativas historicamente subalternizadas para abrir outros horizontes. É desse rastro que os trabalhos reunidos nesta exposição se alimentam. Movem-se por um passado que permanece aberto à revisão e, nesse percurso, abrem uma fresta por onde o futuro ainda pode entrar.
Priscyla Gomes
Curadora
[1] historiador da arte alemão.
[2] filósofo e historiador da arte francês.
Patrocinador: Phenicia Concept
Apoio: Lechler, Stella Artois e The House of Suntory

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