Um percurso pela SP-Arte
Por: Carollina Lauriano

A SP-Arte 2026 se configura como um campo de observação das práticas contemporâneas, onde diferentes contextos e produções se encontram, revelando tensões, continuidades e deslocamentos. A feira opera como um território em si, onde narrativas se sobrepõem e disputam espaço, ativando leituras possíveis sobre o presente.

Obra de Lídia Lisboa © LAB MR
Em diálogo com a temática “Território e pertencimento”, que orienta o trimestre do LAB MR, a curadora Carollina Lauriano propõe um percurso que investiga o território para além de sua dimensão física, compreendendo-o como um campo atravessado por memória, ancestralidade e construção subjetiva. A partir de artistas como Lídia Lisboa, Nádia Taquary, Ayrson Heráclito, Navegante Tremembé, Marcos Siqueira e Janette Vollebregt, o pertencimento emerge como um processo em constante elaboração, entre materialidade, narrativa e deslocamento.
Ao longo do trajeto, o território se revela como experiência vivida. Em Lídia Lisboa, a terra aparece como memória inscrita, evocando paisagens da infância e saberes que conectam corpo e geografia. Já em Nádia Taquary, o pertencimento se constrói a partir da transmissão de narrativas, em um movimento que atravessa o tempo e projeta a continuidade da existência. Em Ayrson Heráclito, o território é também espaço de afirmação, onde a história é tensionada para reinscrever presenças e reivindicar lugares historicamente negados.
Nas práticas de Navegante Tremembé e Marcos Siqueira, a materialidade da terra se torna elemento central. A utilização de pigmentos naturais evidencia uma relação direta com o território, não apenas como suporte, mas como posicionamento. A terra, nesse contexto, é memória, matéria e gesto político, apontando para questões de preservação frente às marcas da exploração e da extrativização.
Por fim, o trabalho de Janette Vollebregt desloca o pertencimento para o campo da escolha. Sua relação com a paisagem brasileira, especialmente com a Chapada dos Veadeiros, propõe uma aproximação construída pela permanência, pela escuta e por uma dimensão sensível da experiência com o lugar. O território, aqui, se estabelece como vínculo, mas também como possibilidade.
O percurso delineado busca abrir frestas, ao aproximar práticas distintas, evidencia como o território pode ser entendido como um campo onde memória, matéria e narrativa se entrelaçam. O pertencimento, por sua vez, se afirma como algo instável, atravessado por disputas, mas também por gestos de reconstrução e continuidade.

Obra de Navegante Tremembé © LAB MR
Carollina Lauriano é curadora e pesquisadora, com atuação voltada a práticas contemporâneas e investigações sobre raça, território e pertencimento. Foi curadora da exposição A noite não adormecerá jamais nos olhos nossos, na Galeria Baró, primeira a reunir 20 artistas racializadas em uma galeria comercial. Atuou como coordenadora do programa de residência artística da Usina Luis Maluf (2021) e como curadora adjunta da 13ª Bienal do Mercosul (2022). Seus textos foram publicados em veículos como Terremoto (México) e seLecT (São Paulo).


