Tamikuã Txihi

Tamikuã Txihi © LAB MR

Para Tamikuã Txihi, o corpo e o território atuam como manifestações vivas de presença e continuidade ancestral. Mulher indígena Pataxó, nascida em Pau Brasil, na Bahia, e hoje habitante da comunidade Tekoa Itakupe, na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, a artista, poeta e ativista estrutura sua prática na defesa inegociável da terra. O deslocamento entre o espaço originário e o contexto urbano constrói a base de uma narrativa que pulsa em cada intervenção, entendendo a arte como um meio de promover a proteção física e espiritual dos saberes originários.

A sua poética desenvolve-se a partir de uma escuta atenta das heranças matriarcais, absorvendo os ensinamentos de sua mãe e avó. Txihi investiga a figura da onça não apenas como um eixo espiritual, mas como um símbolo tangível de resistência que dá origem ao seu próprio nome — uma referência à estrela originária na cosmologia de seu povo. Essa ancestralidade orienta o olhar da artista para a comunhão profunda com o ambiente, guiando um processo que recusa a passividade diante das transformações do território.

"A minha arte está ligada na recuperação, tanto dos territórios físicos quanto do espiritual. Não só de nós mesmos, mas de trazer de volta o jardim da vida.”

Toka da Onça Oka © LAB MR

Esse compromisso ganha contornos espaciais na construção da Toka da Onça Oka. O projeto transcende a ideia convencional de ateliê para consolidar-se como um espaço de vivência e regeneração da Mata Atlântica. Ao empregar técnicas de arquitetura vernacular e saberes indígenas na edificação da oka, Txihi estabelece um contraponto tátil à rigidez do ambiente urbano ao seu redor. A ecologia e a estrutura entrelaçam-se, criando ambientes permeáveis que acolhem o ritual diário e o reflorestamento simultaneamente.

Na dimensão física da obra, a artista traduz a oralidade em suportes físicos, navegando por linguagens que vão da cerâmica à pintura. O manuseio da argila e a escultura resgatam o contato direto com a terra, enquanto as experimentações com pigmentos, acrílica e colagens documentam as tensões contemporâneas. O barro serve de suporte generoso para as memórias, permitindo que o gesto manual e o ritual de moldar a matéria materializem formas densas, carregadas de historicidade.

Materiais de pintura © LAB MR

"Estamos falando aos ouvidos que não querem ouvir. Estamos falando nos olhos que não querem enxergar. Estamos usando a arte como nossos novos arcos e flechas que, simbolicamente, lançarão o sonho da humanidade ao futuro.”

As obras de Tamikuã operam como documentos vivos de uma luta contínua. Formada também em Serviço Social, a artista costura sua produção poética com o ativismo territorial e o feminismo comunitário. Através dessa multiplicidade de técnicas e saberes, a sua arquitetura de ideias propõe um respiro perene, convidando a repensar as formas de habitar, de cuidar e de pertencer ao mundo.