Oksana Rudko

Um som pode chamar a atenção justamente por não pertencer ao repertório de quem o escuta. Na prática de Oksana Rudko, esse estranhamento orienta a aproximação com os lugares e a escolha do que será registrado. Vozes, manifestações coletivas, pássaros, vento e carros tornam-se materiais de uma pesquisa em que a gravação de campo se desdobra em instalações, trabalhos gráficos e audiovisuais. Ao passar de um meio a outro, o som transforma também a maneira de perceber uma paisagem.
Nascida na Sibéria e radicada em São Paulo desde 2022, a artista encontrou no Brasil uma experiência sonora diferente daquela que conhecia. Os gritos durante a Copa do Mundo e as eleições, por exemplo, despertaram sua atenção como forma de manifestação pública. Em seu primeiro ano no país, registrou essas situações, observando como opiniões e emoções eram expressas pela voz. A escuta acompanhava, assim, o processo de conhecer um território e seus modos de convivência.
“Minha prática começa sempre com uma escuta. O que chama a atenção, acho que, como para todos os seres humanos, é alguma coisa estranha, diferente. Quando ouço isso, começo a gravar.”

Sua relação com o som começou no jornalismo. Interessada pelo rádio desde a faculdade, Oksana passou a trabalhar com gravações de campo, edição e montagem de materiais sonoros. A possibilidade de criar histórias apenas com aquilo que se ouve antecedeu sua aproximação com a arte e permanece em seu método. Registrar um acontecimento é uma etapa de um processo que continua na seleção, na combinação e na transformação dos sons.
Esse procedimento envolve deslocamentos entre linguagens. Fotografias podem ser convertidas em som; gravações podem integrar composições que, posteriormente, são transformadas em imagens. A passagem pelos algoritmos introduz interferências que a artista incorpora aos trabalhos. O registro de um lugar reaparece modificado, atravessado tanto pelos sons captados quanto pelos ruídos produzidos durante sua tradução digital.
“Também investigo como os ruídos dos algoritmos invadem a imagem da paisagem e do território.”

O interesse pela geologia acrescentou outra dimensão a essa pesquisa. Ao estudar a história da Terra, Oksana se aproximou das crateras formadas pelo impacto de corpos celestes. A chegada de um corpo a outro território estabelecia uma conexão com o deslocamento, questão já presente em sua prática. Durante a Residência Artística do LAB MR, essa investigação tomou como ponto de partida a Cratera Colônia, na região de Parelheiros, no sul de São Paulo.
Nesse trabalho, sons cotidianos e fotografias do local foram combinados a dados geológicos. A paisagem passou a ser elaborada por meio de materiais que registram diferentes aspectos de sua existência, do movimento das pessoas e dos animais à estrutura do terreno. Convertidos entre som e imagem, esses registros deram origem a trabalhos gráficos e a um filme híbrido. As camadas resultantes preservam elementos reconhecíveis do lugar, mas também tornam visíveis as interferências de sua transformação.
“Esses ruídos formam novas camadas na imagem, camadas que se sobrepõem às anteriores como estratos geológicos, criando uma espécie de cicatriz de impacto nas imagens.”

A aproximação com a geologia aparece na maneira como Oksana descreve essas superfícies. Os ruídos se sobrepõem como estratos e produzem o que ela chama de uma “cicatriz de impacto” nas imagens. O procedimento digital estabelece um paralelo com as marcas deixadas no território, fazendo da própria construção da obra uma forma de investigar acúmulos, rupturas e transformações.
Sua experimentação permanece aberta ao que ela ainda não conhece. Ao falar sobre as questões que orientam sua produção, Oksana menciona a vontade de fazer uma descoberta. Essa procura se realiza no trabalho com os registros, nas combinações entre materiais e na atenção aos resultados inesperados dos processos digitais. A escuta inicia o percurso, mas o que chega à imagem já carrega as transformações de cada passagem.



