Makunaíma é Duwid: uma conversa com Gustavo Caboco

Na exposição Macunaíma é Duwid, em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, Gustavo Caboco propõe um deslocamento da narrativa construída em torno da obra de Mário de Andrade. Artista, escritor e curador da mostra, Caboco parte das histórias de Makuna’imî — ou Duwid, como é conhecido entre os povos Wapixana — para ampliar a leitura sobre o personagem, reunindo artistas indígenas de diferentes gerações e colocando em perspectiva as narrativas que atravessam Roraima, seus territórios e suas memórias. Nesta conversa, ele fala sobre o processo curatorial, o conceito de antibatismo e a importância de pensar a arte como um espaço de demarcação de narrativas.
Antes de falar sobre a exposição, gostaria que você apresentasse Duwid. Quem é essa figura nas narrativas Wapixana e por que ela é tão importante?
São dois irmãos, Duwid e Tuminkery, que vivem no tempo de origem da humanidade. Eles possuem características muito diferentes entre si. Tuminkery faz as coisas pelo caminho considerado correto: sabe cantar, conhece os rituais, domina a linguagem e sabe conduzir a vida.
Já Duwid é um personagem inquieto. É teimoso, impulsivo e, muitas vezes, age movido pela inveja ou pela raiva, provocando transformações. Ele atrapalha o caminho do irmão, mas esse "atrapalhar" acaba produzindo outra coisa: obriga as pessoas a encontrar soluções e reorganizar o mundo.
Gosto de pensar que é justamente aí que acontece uma manutenção da cultura. Cada problema criado por Duwid exige que as pessoas respondam, inventem novas formas de agir e continuem produzindo conhecimento.
Uma das histórias mais conhecidas é aquela em que seu corpo é despedaçado e precisa ser reunido novamente. Essa narrativa aparece nas histórias tradicionais, em diferentes registros, chega ao livro de Mário de Andrade e também às representações visuais produzidas ao longo do século XX.
Para nós, essas histórias estão ligadas ao próprio momento de origem da humanidade. É quando os dois irmãos derrubam a grande árvore da vida, cujo topo corresponde ao Monte Roraima. Essa árvore reunia toda a abundância do mundo, e sua queda transforma completamente a relação das pessoas com o território. Muitas das obras presentes na exposição partem justamente dessa narrativa.

A dimensão humana (2013) Jaider Esbell © LAB MR

© LAB MR
O título da exposição afirma que "Macunaíma é Duwid". O que significa devolver esse nome?
A exposição nasce justamente desse desejo de devolver esse nome. Ela não foi concebida para acusar Mário de Andrade de apropriação. Essa discussão existe desde a publicação de Macunaíma, em 1928. Na época, muitos críticos já apontavam que ele havia se apropriado de narrativas populares e indígenas.
Cem anos depois, porém, repetir esse mesmo debate já não nos interessa. O que nos interessa é perguntar: o que ainda pode ser produzido a partir dessas histórias?
Por isso, antes mesmo de pensar na exposição, organizamos na Pinacoteca um grupo de estudos, o Ajuri. Durante mais de um ano, reunimos artistas, pesquisadores, escritores e lideranças indígenas para discutir essas narrativas a partir de Roraima. A exposição é resultado desse processo coletivo.
Macunaíma funciona como um pretexto para olharmos para algo muito maior: uma rede de artistas indígenas que, há décadas, produz imagens, pesquisas e reflexões sobre seus próprios territórios.
Quando devolvemos o nome Duwid, estamos lembrando que essa personagem possui muitos nomes, muitas versões e muitos pertencimentos. Não existe uma narrativa única. O objetivo nunca foi substituir uma história por outra, mas ampliar o campo de leitura.
A exposição revisita Mário de Andrade sem colocá-lo como antagonista. Como vocês construíram esse posicionamento?
Desde o início, não queríamos fazer uma exposição de acusação. Também não queríamos ilustrar o livro Macunaíma.
Nossa proposta foi convidar Mário de Andrade a ocupar o mesmo espaço dos artistas presentes na exposição. Por isso, mostramos seus desenhos, suas gravações, suas pesquisas etnográficas, suas viagens pelo Brasil e seu trabalho como gestor cultural. Ele aparece ali como artista.
Ao mesmo tempo, colocamos essas produções em diálogo com artistas indígenas que vêm pensando essas mesmas narrativas há décadas.
A exposição procura mostrar que essas pesquisas não começaram agora. Muitos dos artistas presentes — como Bartô Makuxi, Carmézia Emiliano, Mário Flores Taurepang, Isaias Patamona — desenvolvem esse trabalho há trinta ou quarenta anos.
Esse era um ponto muito importante para mim, enquanto curador: marcar a anterioridade dessas produções. Mário de Andrade e o pesquisador Theodor Koch-Grünberg têm um papel importante nessa história, mas, para nós, aparecem quase como uma nota de rodapé. O centro da exposição está nas produções indígenas, na continuidade dessas narrativas e nas formas como elas permanecem vivas.
A exposição está organizada em três núcleos. Como vocês pensaram esse percurso?
Não quisemos construir uma exposição em que uma sala fosse apenas sobre Mário de Andrade e outra apenas sobre artistas indígenas. Pelo contrário. Existe uma costura entre todos os núcleos, porque essa também é a complexidade do tema.
Estamos pensando o centenário de Macunaíma, mas olhando para além da ideia de identidade brasileira. O que nos interessa é perceber como diferentes possibilidades políticas, culturais e artísticas transformam a maneira como entendemos essas histórias.
Essa organização também parte da minha própria pesquisa artística. As obras que apresento na exposição ajudam a estabelecer diálogos com os trabalhos dos outros artistas e conduzem esse percurso.
Na primeira sala, intitulada Mário de Andrade, o artista. Macunaíma, a ficção, apresento a obra Macunaíma, a ficção, que reúne mais de cinquenta capas de diferentes edições do livro. É uma pesquisa que continua em expansão, porque existem inúmeras versões gráficas produzidas ao longo do tempo.
Ao reunir essas capas, queremos situar Macunaíma no campo da ficção.
Mário de Andrade aparece ali como artista. Há desenhos seus, gravações de voz, registros das viagens etnográficas, das Missões de Pesquisas Folclóricas e documentos de sua atuação como gestor cultural. É um reconhecimento da importância de sua pesquisa, mas sem colocá-lo como centro absoluto da narrativa. Também não é uma exposição de acusação. Mário participa desse diálogo como qualquer outro artista presente na mostra.
A partir daí, começamos a aproximar diferentes temporalidades e diferentes formas de produzir imagens sobre Makuna’imî.

Exposição "Macunaíma é Duwid", em cartaz na Pinacoteca de São Paulo © LAB MR
A segunda sala apresenta o conceito de "antibatismo". O que significa essa ideia?
O núcleo histórico da exposição funciona quase como um passo atrás da obra literária. Nele, começamos a olhar para imagens produzidas durante o processo de colonização e para a maneira como determinados corpos e narrativas foram nomeados ao longo da história.
Existe uma pintura de Benedito Calixto que mostra Jesus em um cenário brasileiro. Do ponto de vista Wapixana, poderíamos olhar para aquela figura e chamá-la por outro nome. Dependendo da referência cultural de quem observa, a imagem muda completamente.
É justamente sobre isso que trata o antibatismo. A palavra nasce para discutir os processos de nomeação. Quando Makunaimî é batizado como Macunaíma, ele passa a ocupar outro lugar, torna-se outra imagem. O antibatismo propõe o movimento contrário: voltar antes desse batismo e perguntar quais nomes existiam, quais histórias estavam presentes e quais sentidos foram deslocados.
Esse pensamento aparece na obra “Antibatismo de Makuna’imî” e “Pussanga de pedra”, que produzi em resposta ao “Batizado de Macunaíma”, de Tarsila do Amaral.
Na minha obra, a figura que aparece sendo batizada começa a se transformar em pedra. Essa transformação dialoga diretamente com diversas narrativas de Makuna’imî, nas quais personagens, montanhas e paisagens se tornam pedra. O próprio Monte Roraima nasce desse conjunto de histórias.
Ao mesmo tempo, inseri na obra pessoas indígenas fotografando essa transformação. É uma maneira de atualizar aquela imagem e mostrar que essas narrativas continuam sendo produzidas e observadas por quem sempre pertenceu a elas.

Antibatismo de Makunaimi (2019-22) Gustavo Caboco © LAB MR
Em vários momentos você diz que Duwid "dá trabalho" às pessoas. Essa ideia parece atravessar também a experiência da exposição.
Eu gosto muito dessa leitura. Nas histórias tradicionais, Duwid frequentemente cria problemas. Quando ele derruba a grande árvore, por exemplo, a abundância desaparece. Antes, os alimentos estavam disponíveis; depois disso, as pessoas passam a plantar, cultivar e trabalhar a terra.
Ele cria dificuldades, mas são justamente essas dificuldades que produzem conhecimento. Elas obrigam as pessoas a aprender outras maneiras de viver. Acho que a exposição tenta provocar algo semelhante.
Ela não pretende romantizar essas histórias nem oferecer respostas prontas. Pelo contrário, busca apresentar a complexidade histórica da região de Roraima, marcada por disputas territoriais, fronteiras impostas, processos coloniais e diferentes formas de resistência.
Uma das perguntas que orientou todo esse trabalho foi justamente: como essas histórias conseguiram permanecer vivas durante tanto tempo? Como continuam sendo transmitidas entre diferentes gerações?
Trazer Duwid para dentro da Pinacoteca é uma maneira de colocar essas perguntas diante do público e convidar cada visitante a revisitar aquilo que parecia conhecido.

Lenda do monte Roraima (2006) Carmézia Emiliano © LAB MR
Ao reunir diferentes artistas e narrativas, o que você espera que permaneça com o público depois da visita à exposição?
Espero que as pessoas saiam entendendo que essas histórias continuam vivas. Elas não pertencem apenas ao passado, nem estão restritas ao livro de Mário de Andrade. São narrativas que continuam sendo contadas, transformadas e produzidas por diferentes povos indígenas.
Também espero que a exposição contribua para deslocar o olhar sobre Roraima. Muitas vezes, a região aparece apenas como um território distante ou associado a conflitos, quando, na verdade, é um lugar de intensa produção artística, intelectual e cultural.
A exposição procura não romantizar essas histórias, mas sim mostrar as realidades e complexidades históricas próprias de Roraima. Talvez esse seja o principal papel de Duwid: assim como nas histórias tradicionais ele corta a árvore da vida e nos obriga a plantar, ele "maligna da gente" e nos dá trabalho. Trazer essa presença para a Pinacoteca é usar a força de sensibilização da arte para criar esses deslocamentos, provocando dificuldades que nos obrigam a assumir o trabalho de repensar as imagens e a história que imaginávamos conhecer.

Makunaima em pedaços (2025) Mario Flores Taurepang © LAB MR
A exposição “Macunaíma é Duwid” está em cartaz na Pinacoteca de São Paulo até 13 de setembro de 2026, com curadoria do artista e ativista indígena Gustavo Caboco com acompanhamento de Thierry Freitas. Mais informações, acesse o site da Pinacoteca.
Gustavo Caboco (Curitiba, PR, 1989).
Artista visual Wapichana, trabalha na rede Paraná-Roraima e nos caminhos de retorno à terra. Sua produção com desenho-documento, pintura, texto, bordado, animação e performance propõe maneiras de refletir sobre os deslocamentos dos corpos indígenas e sobre a produção e as retomadas da memória. Dedica-se também à pesquisa autônoma em acervos museológicos para contribuir na luta dos povos indígenas.
Primeiro “retorno à terra” Wapichana (2001). Foi vencedor do Concurso FNLIJ Tamoios de Textos de Escritores Indígenas (2018) com o texto “Semente de Caboco”, publicou seu primeiro livro “Baaraz Kawau” no Museu Paranaense (Curitiba, 2019), participou da Exposição ‘VAIVÉM’ no CCBB (São Paulo, 2019), da exposição “VÉXOA - nós sabemos” na Pinacoteca (São Paulo, 2020), vencedor do 3º Prêmio seLecT de Arte e Educação (2020), artista participante da 34º Bienal de São Paulo (2021) e da exposição Moquém Surarï no MAM (São Paulo, 2021). Realizou a performance “encontro di-fuso” na Universidade de Manchester durante o “Festival of Latin American Anti-Racist and Decolonial Art” (2022), convidado para o encontro indígena "aabaakwad" no pavilhão Sámi na Bienal de Veneza (2022), artista convidado do 32⁰ programa de exposições do CCSP com “Coma Colonial” (2022) e realizou a individual “ouvir àterra” na Millan (São Paulo, 2022).

© Gustavo Caboco





