Hugo Fortes

A obra de Hugo Fortes emerge do atrito entre arte, ecologia e percepção urbana, investigando as dinâmicas de distanciamento e reconexão entre o corpo e a paisagem natural. Artista visual e pesquisador, Fortes estrutura seu trabalho a partir de um contraste latente: a experiência da vida urbana contemporânea, marcada pela contenção e artificialidade, e a força orgânica e insubmissa dos ecossistemas. Sua obra propõe uma observação atenta da água, da floresta e dos elementos naturais não como cenários estáticos, mas como corpos em constante transformação.

Hugo Fortes © LAB MR

"Acho que sou um artista bastante intuitivo, nem sempre eu tenho tudo muito programado do que eu quero fazer... E acho que esse processo criativo é o que me interessa, sem ter necessariamente um rumo completamente definido."

Em suas construções visuais, a dicotomia entre natureza e cultura materializa-se pelo contraste entre a rigidez das formas geométricas e a organicidade da matéria. Fortes emprega materiais assépticos e racionais, como o vidro e o formato do aquário, para enquadrar elementos imprevisíveis — terra, parafina, galhos e água. Esse enquadramento não busca dominar a paisagem, mas evidenciar a artificialidade com a qual a cidade tenta conter a força da natureza. Em suas instalações site-specific, o encontro com o imponderável dita o ritmo da obra, revelando a beleza no acaso e no erro.

"O erro é super importante para a arte, deixar que algumas coisas aconteçam.”

Ateliê de Hugo Fortes © LAB MR

O trânsito contínuo por múltiplos territórios — das expedições à Amazônia e Mata Atlântica aos horizontes verticais de São Paulo — confere ao trabalho do artista uma urgência contemporânea. Durante uma residência no interior da Amazônia, a imersão profunda na floresta resultou em registros em fotografia e vídeo que, mais tarde, diante da crise ambiental e do aumento das queimadas, desdobraram-se em telas de grandes dimensões. A escolha pela pintura acrílica em grande escala permitiu a Fortes uma soltura do gesto, capturando a densidade e o "caos" da floresta de maneira visceral e imersiva.

A fluidez metodológica do artista reflete a própria natureza fluida de seu objeto de estudo. Ao transitar livremente entre a pintura, a instalação, o vídeo e a performance, Hugo Fortes constrói uma poética da impermanência. Suas telas, com tons que reagem à luz, e seus horizontes artificiais elaborados em níveis de água, convidam o público a uma contemplação profunda. Em cada obra, o artista reafirma a natureza como um lugar de renovação essencial e sublinha a necessidade de estarmos abertos ao encontro, mesmo nas frestas onde a vida orgânica resiste sufocada pelo concreto urbano.