Henrique Sur

O artista visual e pesquisador baiano Henrique Sur costura a observação científica à poética do espaço em sua produção. Mestrando em poéticas visuais pela ECA-USP, o artista estabelece um campo de estudo rigoroso onde o território não é tratado apenas como cenário, mas como um corpo vulnerável à ação do tempo e às urgências contemporâneas. Em sua trajetória, o ateliê surge como um laboratório de investigação contínua, onde o rigor acadêmico encontra a matéria palpável para questionar a presença humana diante da vastidão natural.

Henrique Sur © LAB MR

O olhar do artista debruça-se sobre a urgência das mudanças climáticas, investigando a fricção constante entre a água, a paisagem e a intervenção humana costeira. Ao invés de uma abordagem puramente documental, a obra convoca uma reflexão sensível sobre o limite do controle humano, materializada na construção de paisagens frias e inóspitas, propositalmente desprovidas de uma presença humana convidativa. O artista examina a contradição inerente às tentativas de contenção da natureza, destacando a fragilidade das fronteiras que erguemos para nos proteger da erosão que nós mesmos aceleramos.

No centro dessa investigação, emerge a figura geométrica do tetrápode — o bloco de concreto maciço utilizado na engenharia de quebra-mares. Sob o olhar de Sur, essa estrutura perde sua neutralidade utilitária para converter-se em um símbolo de resistência e de profunda ironia: o ser humano criando objetos monumentais para reter sua própria força destrutiva. Obras presentes na exposição, como "Forte" — onde uma torre se anexa ao tetrápode — e "Intuição" — que traz uma figura em estado de apreensão em seu topo —, revelam o esforço contínuo de sinalização e sobrevivência diante do avanço das águas.

"Normalmente, na minha pesquisa, eu tento trazer uma paisagem mais fria, na qual eu quero que a pessoa só contemple e não sinta vontade de estar lá.”

Para traduzir essa densidade narrativa, a produção cruza diferentes linguagens, transitando com fluidez entre a gravura, o desenho e a escultura em cerâmica. A escolha dos suportes reflete a própria sedimentação da paisagem. O trabalho com a argila, muitas vezes marcado por esmaltações azuis, carrega a memória indissociável da terra e da água, enquanto figuras como a garça surgem para evocar a migração e a temporalidade. Em paralelo, a gravura em metal atua como meio de difusão da informação, exigindo um gesto físico rigoroso onde as incisões mimetizam a ação implacável do tempo sobre a matéria rígida.

© LAB MR

Ao estruturar esse embate entre a fluidez oceânica e a dureza dos materiais, o artista nos recorda que a paisagem encontra-se em um estado perpétuo de mutação. A observação de suas obras convida o espectador a um deslocamento tátil e visual, compreendendo que o quebra-mar — assim como a nossa própria existência — é apenas uma adaptação temporária. A produção de Henrique Sur transcende o debate ecológico para consolidar-se como uma meditação austera sobre a impermanência e a nossa passagem efêmera pelo território.

"Assim como a paisagem muda constantemente, a gente também muda, e a paisagem tende a ficar, a permanecer.”

© LAB MR