A ferida arquitetônica no Pavilhão do Brasil
Por: Anelise Valls

O diálogo proposto entre Rosana Paulino e Adriana Varejão pela curadora Diane Lima acontece num nível muito bem equilibrado entre o estrutural e o visual na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza. Ganha muita notoriedade as infiltrações arquitetônicas que ambas promovem no pavilhão do Brasil, e é sob este aspecto que analiso a exposição intitulada “Comigo ninguém pode”. Uma exposição que revela que a modernidade brasileira foi construída sobre mecanismos profundos de apagamento, contenção e violência; no entanto, cada uma das artistas cria uma linguagem completamente distinta para tornar isso visível.

Une petite mort de Adriana Varejão (2005)
Varejão é marcada por uma produção que transforma paredes em carne, azulejos em ferida, superfície em trauma histórico. Em vez de tratar o modernismo como símbolo de progresso limpo e racional, ela revela aquilo que está reprimido sob a brancura arquitetônica: sangue, escoriação, colonialidade, violência, chagas de um trauma.
Paulino entra nesse mesmo campo, mas desloca a operação para outra camada: ela introduz corpos negros, memórias ancestrais e sistemas de aprisionamento dentro da própria lógica espacial. A artista se concentra nos saberes afro-diaspóricos, memórias genealógicas e cosmologias que historicamente foram expulsas das narrativas oficiais.

Instalação Aracnes de Rosana Paulino (1996-2026)
"O fato é que ambas trabalham para que o edifício deixe de ser suporte com ênfase nas paredes brancas e neutras e passe a parecer uma membrana histórica. As obras não apenas ocupam o espaço, passam a contaminar a percepção inteira dele."
O Pavilhão do Brasil, restaurado recentemente, é um ícone da arquitetura moderna brasileira — herdeira direta de um imaginário de progresso, ordem e universalidade — e, ao ser ocupado pelas artistas brasileiras, passa a ser lido como um organismo vulnerável.

Still Life amid Ruin de Adriana Varejão (2026) e, Aracnes de Rosana Paulino (1996-2026)
Sob a chave dos azulejos de Adriana Varejão logo na passagem de entrada, o que temos é uma operação bem precisa: o teto do corredor pode ser lido como dispositivo de poder. Explico: historicamente em igrejas e palácios, o teto é lugar de narrativa totalizante, controle do olhar, elevação simbólica. Aqui, o corredor estreito força o corpo a atravessar enquanto o olhar sobe, criando uma dupla submissão: você anda e ao mesmo tempo é capturado pela imagem acima. Essas linhas que parecem fissuras são decisivas e fazem duas coisas ao mesmo tempo: 1) simulam o craquelado da cerâmica que remete ao tempo, desgaste, história e 2) parecem veias ou cortes que indicam corpo, carne, interior. Varejão é cirúrgica em unir gesto e a matéria, pois a superfície civilizada (azulejo que supostamente apenas decoraria) começa a trincar e revelar violência latente. Vale notar também as colunas verticais de matéria viscosa rosada, lilás, cinza e avermelhada que estão no espaço expositivo, radicalizando uma operação recorrente da artista: transformar pintura em carne. É impossível não conduzir o olhar a lembrar de músculos, vísceras, tecidos internos, bem como o próprio barroco. Esse embaralhamento entre sensualidade e decomposição é central na obra dela desde os anos 1990.
Já ao centro da exposição surgem vergalhões curvos, enferrujados, quase orgânicos, como se a arquitetura estivesse apodrecendo, erguendo braços para se salvar, revelando sua ossatura ou criando garras de defesa. A instalação de Rosana Paulino nos faz lembrar de construção inacabada, armaduras de concreto antes da parede existir. Isso já produz uma imagem muito forte: estamos diante da infraestrutura de algo que nunca se completou ou que foi interrompido. Os ferrugens das barras conversam cromaticamente com os tons avermelhados das fissuras nas paredes e com as massas rosadas do teto. Isso faz parecer que o próprio edifício está entrando em estado de corrosão interna. A estrutura de concreto lembra diretamente um módulo modernista brutalista em que Paulino trabalha dispondo imagens de rostos e corpos negros que aparecem ora suspensos, ora presos, atravessados por fios; capturados numa estrutura que lembra grades, arames ou dispositivos de contenção. Os retratos impressos pairam como arquivos. Há algo profundamente espectral nisso. Eles não ocupam plenamente o espaço; parecem memórias tentando permanecer. Os fios quase invisíveis transformam o espaço inteiro num campo tensionado. Eles parecem frágeis, mas organizam toda a tensão da instalação. É quase como se a memória estivesse sendo sustentada por conexões mínimas, extremamente delicadas, prestes a romper. A instalação deixa de ser apenas objeto e vira uma rede de forças.

Une petite mort de Adriana Varejão (2005), e Comigo ninguém pode de Rosana Paulino (2026)
"Enquanto Varejão opera pela explosão visceral da matéria, Paulino opera pela persistência da memória silenciada. Uma contamina a outra visualmente. Paulino apresenta os sujeitos históricos atingidos pela violência, Varejão apresenta a própria máquina histórica dessa violência operando na matéria: uma anatomia histórica da própria formação brasileira."
Há ainda um ponto decisivo: ambas recusam a passividade do olhar. Cada visitante não observa as obras de fora; somos fisicamente implicados nelas. Somos obrigados a atravessar essas estruturas com o próprio corpo, recalculando constantemente nossa posição dentro delas. A experiência estética se desloca para uma experiência de responsabilização histórica (que, espera-se, seja um efeito que o público carregue consigo além de Veneza, levando mundo afora). O sujeito precisa abandonar a ideia de mera contemplação e reconhecer que também está inserido nos sistemas que as obras revelam.
Fotos: Rafa Jacinto, Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação

Anelise Valls (@anevalls) é, curadora, professora e Drª em Artes Visuais - História, Teoria e Crítica da Arte (UFRGS) com pesquisa em práticas e processos de criação em arte contemporânea. Desde 2020, coordena um projeto independente de cursos online e faz acompanhamentos e consultorias para artistas visuais e instituições.Em 2025, curou a exposição “A Bruta Delicadeza” na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre-RS, "Na borda do Mundo” no Instituto de Arquitetos do RS (IAB-RS), "Processos e Poéticas” no Vila Flores, “A mão do olho na mão do mundo” na Galeria 506 (POA), “O Abismo da Superfície” na Galeria Mamute, “Devolver a escala ao tamanho das coisas” na Bronze Residência, "Memória do Desejo" no Espaço Arco(SP) e "Zênite” na Galeria Mamute.