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Chacha Barja © LAB MR

Antes de adquirir uma forma, o barro é memória. É dessa compreensão que parte a pesquisa de Chacha Barja, para quem a escultura se constrói como um exercício contínuo de escavar, erguer e transformar a matéria. Em suas obras, corpo, água, terra e gesto se atravessam, fazendo da cerâmica um espaço onde experiências da infância, deslocamentos e processos naturais permanecem em constante mutação.

As primeiras investigações surgem das lembranças da infância em Belém. O artista relembra as formas moldadas com a areia barrenta retirada do fundo da água. As figuras criadas secavam, desapareciam e voltavam a ser matéria, estabelecendo um ciclo de construção e destruição que permanece como fundamento de sua prática. Mais tarde, ao viver em Recife e, posteriormente, em São Paulo, essas memórias passam a se cruzar com experiências de deslocamento, fazendo do barro um elo entre diferentes territórios e tempos da vida.

Ateliê Chacha Barja © LAB MR

"A gente mergulhava, pegava aquela areia barrenta e dali a brincadeira surgia. Depois ela secava e a gente destruía tudo de novo. Tem uma questão cíclica que eu trago para o trabalho."

Nos trabalhos mais recentes, essa pesquisa amplia seu campo de investigação. Um sonho recorrente, no qual atravessa um deserto até descobrir que a água estava sob seus pés, transforma-se em uma imagem central de sua produção. A partir dessa narrativa, Barja passa a compreender a escultura como um gesto de escavação e descoberta, em que a matéria revela formas que parecem emergir da terra. Explosão, reconstrução, fertilidade e transformação tornam-se ideias recorrentes em um trabalho que investiga o barro como matéria viva e em permanente estado de mutação.

Ateliê Chacha Barja © LAB MR

Essa aproximação também redefine sua relação com a escultura. Interessa ao artista compreender até onde a matéria pode ser levada e como o corpo permanece inscrito em cada forma produzida. As superfícies preservam as marcas das mãos, dos braços e do esforço físico necessário para erguer grandes volumes de cerâmica, enquanto ovos, raízes, órgãos, vulcões e outras formas orgânicas surgem como imagens que atravessam diferentes estados da matéria, sem buscar uma representação fixa. O barro cru, os óxidos metálicos e as superfícies que evocam formas recém-saídas da água ampliam a sensação de um corpo em constante transformação.

Chacha Barja © LAB MR

"Eu vou pesquisando o amassar, o erguer, o juntar, o empilhar, trazendo questões primárias da escultura."

Chacha Barja © LAB MR

Paralelamente às esculturas, Barja desenvolve trabalhos sobre lona de algodão, material utilizado cotidianamente em seu ateliê. As marcas deixadas pelo barro, pelas ferramentas e pelos gestos do fazer tornam-se desenhos, monotipias e pinturas que registram o próprio processo escultórico. Essas obras preservam os vestígios da ação sobre a matéria, fazendo da pintura uma continuidade da escultura e do processo um elemento central da pesquisa.

"Quando eu estou edificando, é como se eu estivesse também me doando um corpo para aquela escultura.”

Ao longo desse percurso, Chacha Barja constrói uma prática em que a escultura deixa de ser compreendida apenas como forma acabada e passa a existir como experiência. Entre memória e imaginação, gesto e matéria, suas obras revelam um fazer que se alimenta da repetição, da transformação e da insistência do corpo sobre o barro, preservando, em cada superfície, os vestígios de um processo que permanece sempre em movimento.

Ateliê Chacha Barja © LAB MR