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Amorí © LAB MR

Entre pintura e escultura, Amorí constrói uma pesquisa em que as duas linguagens deixam de ocupar lugares distintos e passam a coexistir como um mesmo campo de investigação. Formas, gestos e matérias atravessam continuamente um trabalho e outro, retornando em diferentes escalas, suportes e estados de transformação. É nesse movimento que a artista desenvolve uma prática em que a repetição não significa permanência, mas possibilidade de deslocamento.

As primeiras investigações surgem a partir de uma história sobre uma estrela que sonhava viver no mar. Inspirada por um livro recebido na infância, Amorí aproxima elementos da astronomia da ficção, construindo um imaginário onde céu, paisagem e fantasia convivem como parte de uma mesma narrativa. As esculturas passam a habitar as pinturas, enquanto a pintura se torna um espaço para experimentar relações que mais tarde retornam à tridimensionalidade.

Ateliê Amorí © LAB MR

"Eu parto dessa história para entrar em alguns conceitos e algumas ideias de astronomia, mas trazendo isso para um lugar que não era o lugar da ciência, mas da ficção, de criar uma fantasia mesmo."

Nos trabalhos mais recentes, essa pesquisa desloca seu eixo. Sem abandonar o universo imaginário que marcou sua produção, Amorí aproxima o olhar da terra, interessando-se pelos vestígios deixados pelo tempo e pelas paisagens onde cresceu, na Zona da Mata pernambucana. Antigos galpões industriais, cercas de fazenda, campos de capim e cana-de-açúcar deixam de aparecer apenas como lembranças para se tornarem estruturas que organizam o pensamento da artista. A ideia de feixe passa a sintetizar esse encontro: de um lado, o feixe de luz emitido pelas estrelas; de outro, o feixe de madeira, lenha ou cana reunido pelas mãos. Entre ambos, a artista constrói um espaço onde céu e terra deixam de ser opostos e passam a habitar uma mesma imagem.

Amorí © LAB MR

Essa aproximação também redefine sua relação com a matéria. Madeira, vergalhões, couro, estopa de algodão, látex e outros materiais, muitas vezes provenientes de sobras da construção civil ou da indústria têxtil, passam a compor esculturas que evidenciam a ação do tempo sobre suas superfícies. Interessa à artista compreender como esses materiais podem ser deslocados de seus usos habituais e adquirir novos significados por meio da prática escultórica.

Ateliê Amorí © LAB MR

"Uma forma que encontrei de trazer fantasia para a escultura é nessa transformação da matéria: pensar como deixar um vergalhão elegante ou utilizar uma estopa de algodão, uma matéria residual, de uma forma que ela ganhe outro valor."

Ateliê Amorí © LAB MR

Ao longo desse percurso, Amorí percebe que sua pesquisa não tratava apenas da paisagem, da astronomia ou dos materiais. O trabalho tornou-se também uma forma de revisitar as experiências da infância e compreender como elas permanecem inscritas no corpo e na memória. A fantasia, presente desde as primeiras pinturas, deixa de operar como fuga e passa a funcionar como um modo de acessar aquilo que o tempo tornou distante.

"Acho que talvez a coisa mais benéfica disso tudo seja uma reconexão com as memórias. Trabalhar com essas memórias e colocar muita fantasia nisso tudo é importante para mim. É algo que eu quero que chegue nas pessoas."

Sem estabelecer fronteiras rígidas entre pintura e escultura, memória e imaginação, céu e terra, sua produção propõe um percurso em constante transformação, onde a matéria preserva vestígios, cria relações e amplia as possibilidades de imaginar outras formas de habitar a paisagem.

Amorí © LAB MR