A Copa do Mundo fez milhões de pessoas olharem para a arte
Por: Anelise Valls

Quando uma camiseta esportiva de uma seleção da copa pode ser um dispositivo de mediação cultural, ou o que acontece quando uma obra de arte deixa o museu para disputar uma Copa do Mundo?
Nos últimos dias, o time da Bélgica fez homenagem a Magritte e ponto é que não se
resumiu a um exercício de estamparia. O azul do céu, as formas circulares que remetem às
esferas flutuantes de La Voix des Airs (1931) e, sobretudo, a inscrição no colarinho — Ceci
n'est pas un maillot ("Isto não é uma camisa") deslocam uma das provocações mais
famosas da história da arte para um dos objetos mais populares do planeta. Não se trata
apenas de vestir um uniforme; trata-se de uma operação simbólica.

Camiseta da Bélgica de 2026
É curioso perceber que Magritte sempre trabalhou justamente contra a transparência das
imagens. Ao escrever "Isto não é um cachimbo" sob a pintura de um cachimbo, a
provocação não consiste em uma piada, mas antes, em um lembrete de que uma imagem
nunca é a coisa em si: entre representação e realidade existe uma distância impossível de
eliminar.
Ao escrever "Isto não é uma camisa", a Bélgica atualiza esse gesto para a cultura visual do
século XXI. Afinal, aquela peça também não é apenas uma camisa. É identidade nacional,
marketing esportivo, objeto de desejo, produto de moda, souvenir, símbolo de
pertencimento e, agora, referência artística.
Talvez seja esse o aspecto mais interessante do projeto: em vez de tratar a arte como um
selo de sofisticação, a camisa transforma um estádio em espaço de circulação simbólica. E
mais do que isso, alcança o digital, bem como as redes sociais que estendem a discussão.
Pessoas que talvez jamais tenham ouvido falar de Magritte passam a perguntar por que
aquela frase está ali. A obra deixa de depender da parede branca do museu para existir no
corpo de atletas, torcedores e colecionadores.

Ceci n'est pas une pipe- Magritte (1929)
Há quem veja nisso apenas uma estratégia comercial e, em alguma medida, é impossível
negar uma vez que grandes marcas compreenderam que o capital cultural também agrega
valor econômico. No entanto, reduzir a iniciativa ao marketing seria ignorar um fenômeno
importante: nunca tantas pessoas tiveram seu primeiro contato com um artista por meio de
uma transmissão esportiva.
Esse deslocamento diz muito sobre o nosso tempo. Durante décadas, insistimos em separar cultura erudita e cultura popular como se habitassem universos incompatíveis. Acamisa belga faz exatamente o contrário: dissolve essa fronteira. O surrealismo entra em campo sem pedir licença.
Como curadora, gosto especialmente do fato de a homenagem não reproduzir uma pintura
inteira. Ela trabalha por aproximações, citações, fragmentos e ecos visuais. É uma
operação mais inteligente do que simplesmente imprimir uma obra famosa sobre um tecido.
O uniforme funciona como uma tradução, não como uma reprodução.
Talvez Magritte apreciasse essa ironia. Afinal, um artista que passou a vida questionando a
estabilidade das imagens provavelmente entenderia que, em 2026, uma de suas obras
encontraria outro suporte: não uma tela, mas uma partida de futebol transmitida para
bilhões de pessoas. No fim das contas, a frase continua verdadeira. Isto não é uma camisa.
É uma imagem pensando sobre outras imagens.

Anelise Valls (@anevalls) é, curadora, professora e Drª em Artes Visuais - História, Teoria e Crítica da Arte (UFRGS) com pesquisa em práticas e processos de criação em arte contemporânea. Desde 2020, coordena um projeto independente de cursos online e faz acompanhamentos e consultorias para artistas visuais e instituições.Em 2025, curou a exposição “A Bruta Delicadeza” na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre-RS, "Na borda do Mundo” no Instituto de Arquitetos do RS (IAB-RS), "Processos e Poéticas” no Vila Flores, “A mão do olho na mão do mundo” na Galeria 506 (POA), “O Abismo da Superfície” na Galeria Mamute, “Devolver a escala ao tamanho das coisas” na Bronze Residência, "Memória do Desejo" no Espaço Arco(SP) e "Zênite” na Galeria Mamute.